• Dolores 602

Dolores 602 por Cleide Simões

Atualizado: 7 de Mar de 2018

2018: Dolores 602 fez de muitas viagens e experimentos musicais uma bagagem invulgar para o público mais ousado, mas que não abre mão de certas tradições e estradas cumpridas no território musical. O título do CD de estreia é CARTOGRAFIA, em co-produção esmerada com Thiago Corrêa (Transmissor), encontro de inspiração e cumplicidade musical numa reunião de 10 faixas.


Camila, Débora, Isabella e Táskia resumem formação e experiência em produção, regência, composição, arranjo, pesquisa musical, vigor e carisma. Algumas de suas apresentações e premiações estão fincadas em palcos de festivais, programas de TV e rádio, espaços alternativos, casas de show. O fato é quem ouve se emociona, comenta, segue e compartilha. O que se garimpa é o resultado de muito empenho e profissionalismo desde o primeiro ano de encontro, 2010, até agora. O repertório é diverso em influências, como o rock`roll, filões de um genuíno blue e folk, a leveza e a sofisticação do pop, com a marca autoral.


CARTOGRAFIA, de Camila Menezes, canção que dá título ao CD, faz com que os corações se convulsionem com a inspiração folk, com o som metalizado do violão, inspirados na sonoridade revival de Neil Young. A letra, com o inspirado jogo entre a metáfora e a metonímia “Gota, espelho do céu, vem caminhar como quem desenha leve a forma, colo, pescoço, joelho, quadril” anuncia corpos que se viajam e se saciam na sequência dos sentidos.


E, numa virada, com a bateria abrindo os ouvidos para acordes de um blue dançante, “VOO” (Débora Ventura, Táskia Ferraz e Emília Aidar) alça para outros ares, numa fiada melódica que alinhava a voz transbordante da vocalista Débora com um crescente no arranjo vocal e instrumental até o final catártico. A letra anuncia que “tudo que é demais sobra” como verso síntese de uma leitura de mundo que tanto fala de busca de plenitude amorosa como de uma conduta de ação minimalista.


ASTRONAUTA (Camila Menezes) anuncia que “tempestade não traz só a destruição”, o que reflete a capacidade diária de superação mesmo em tempos líquidos baumanianos. A voz potente de Débora é conduzida pelo solo do Ukulele de Camila, bem ao gosto de Paul Mccartney, e a guitarra virtuose de Táskia. Mas a energia bate forte com a entrada da batera de Isabella Figueira. Tudo combina e se completa. O micro e o macro se confundem na visão náutica e transcendente desta bela e premiada canção. É ouvir, pois não falta conteúdo, enredo e esperança nas letras dessas meninas!


Muitas canções, festivais, participações em coletâneas, shows estrada afora, esta é a bagagem de DOLORES 602. As moças prometem fazer com que o corpo balance, a mente procure novas paisagens, pois não importa de onde se parta, nem para onde se quer chegar, mas sim o aprendizado andarilho e despojado, como o que nos convida DOLORES 602. Eu já ouvi, agora é a sua vez!


Cleide Simões



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